Dia desses eu li muito rapidamente uma manchete que dizia que “se você não gosta de Natal, isso significa que você vive numa família disfuncional”. Não vou entrar no mérito da questão, afinal, cada um sabe onde o próprio calo aperta. Fato é que, para muitos, o Natal acabou naquele exato momento em que se descobre que Papai Noel não existe. Alguns acabam relevando a questão, mas o fim daquela magia de um ser sobrenatural que nos traz exatamente aquele brinquedo que tanto desejávamos, pela barganha de ser um bom garoto durante o ano, estudioso e carinhoso com a mãe, convenhamos, pode ser traumático e decepcionante.
Eu tenho algumas manias. Uma delas é a de ter mais relógios de pulso do que eu realmente preciso. São oito hoje, mas já foram mais de 15 um dia. E foi um deles que desencadeou um misto de nostalgia e decepção numa cliente e uma das cafeterias onde faço trabalhos como barista.
Nesse dia eu estava usando um Casio F-91W, um dos mais antigos da minha coleção. Levava eu uma bela jarra de café para um casal de amigos, quando a cliente distraidamente notou o relógio no meu pulso. Parecia que ela não escutava minha apresentação daquele café maravilhoso, mas bastou uma olhada mais atenta e pude perceber seus olhos marejados. Ela então se voltou pra mim e disse uma frase que eu nunca vou esquecer na vida: “seu relógio é lindo, mas foi por causa de um parecido que eu descobri que Papai Noel não existia”. Tomado pela surpresa, eu não soube o que dizer. Mas os olhos dela diziam tudo. E eu entendi tudo. A verbalização da história foi um mero protocolo, talvez para nortear o amigo ao lado, que parecia à deriva naquela situação.
Sim, foi como você já deve estar imaginando. Aconteceu numa noite de Natal. Ela, menina entre bonecas, aguardava ansiosamente, entre o barulho das conversas dos parentes e as brincadeiras de correr dos primos mais velhos, a chegada do bom velhinho. Lia a história de Robinson Crusoé, que o pai tanto gosta de ler pra ela a noite, quando escutou a confusão! “Ele chegou! Ele chegou!”, gritava uma das tias, a fim de reunir a garotada em volta daquela figura alta, gorro e vestes vermelhas, barba branca e pança postiços, entoando um Ho! Ho! Ho!! bem desafinado, mas cheio de emoção e alegria.
Chegou a vez dela! Sentada no colo do Papai Noel, ela atropelava as palavras e embaralhava tudo na tentativa ansiosa de contar pra ele como ela tinha sido uma boa menina durante aquele ano! O falso velhinho só fazia sorrir e, distraído, estendeu o braço para pegar o presente daquela garotinha falante. Foi quando ela estancou de repente, e o mundo então cresceu para aquela garotinha. O relógio no braço do bom velhinho, ela já tinha visto em outro braço. Num braço muito familiar, que tanto a abraçava diariamente, que tanto a acariciava nos cabelos cacheados, que segurava firme o livro na cabeceira da sua cama enquanto ele lia uma linda história que não acaba mais...
Sim, naquele dia o mundo cresceu, mas a magia agora é outra, ela sabe. E, sim, ao contrário do poeta, ela sabia que a sua história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.