terça-feira, 15 de outubro de 2024

15 de outubro, Eudaimonia, e um Dia dos Professores reflexivo

Desde 2016, quando consolidei a profissão de professor universitário, eu entro em profunda reflexão nesse período do ano, quando comemora-se o Dia do Professor, hoje, no dia 15 outubro, de acordo com o decreto estabelecido em 1963, que determina que o dia tem como objetivo comemorar e enaltecer a função de “mestre na sociedade moderna”, com a participação de alunos e famílias. Essas reflexões ora colocam em xeque a decisão tomada há oito anos, ora confirmam com alegria a oportunidade de explicar coisas difíceis de forma fácil e clara.

Mas porque alguém escolhe ser professor? Uma autopunição, que compense outras decisões erradas na vida? Seria para agradar a família? Afinal, houve um tempo em que era orgulho ter um filho professor. Por vocação? Qual foi o professor que nunca escutou a frase “esse nasceu pra ensinar”? Pelo salário maravilhoso? Hahaha, claro que não. Enfim, os motivos vão ao infinito, e no Dia dos Professores cabe muito pensar a respeito.

E sempre que penso nisso eu penso também nas pessoas que me inspiraram, nos excelentes professores que tive ao longo da minha vida, mas também naqueles péssimos, que tudo faziam para aterrorizar os alunos, complicando coisas simples, ou seja, exatamente o contrário do que um bom professor tem que fazer.

Dessa forma, a lista torna-se imensa, com nomes que pouco representam para você, que se dedica a ler essas minhas 500 e poucas palavras semanalmente publicadas por aqui. Por isso, vou citar apenas dois nomes que provavelmente você já ouviu falar.

O primeiro, Aristóteles, filósofo e polímata grego, pensador do conceito da Eudaimonia, que traduz a busca pelo estado de contentamento estável, ou simplesmente felicidade. Para ele, o objetivo de vida de todo ser humano deveria ser o de identificar o que o faz feliz, e agarrar-se a ele com todas as suas forças, sem concessões, e seguir adiante nesse propósito já que, para ele, cada ser humano já nasce com seu lugar definido na natureza. Basta apenas encontrá-lo.

O segundo, professor Clóvis de Barros Filho, paulista de 57 anos, que aplicou na íntegra os ensinamentos da Eudaimonia na busca pela sua profissão. Aos13 anos de idade, ele não tinha tesão nenhum pela vida. Segundo as próprias palavras, ele não andava, mas se arrastava. Tirava nota 10 em tudo, mas não vibrava com nada. O pai até tentou lhe mostrar algumas coisas interessantes, como arte, futebol, natação, mas nada era capaz de alegrar o garoto Clóvis. Até o dia em que ele teve que se colocar em frente à escola inteira para apresentar um trabalho sobre petróleo. Quando ele percebeu o interesse de todos os colegas pelo que ele falava, enquanto alguns, inclusive, tomavam nota sobre suas palavras, ali, meu caro, naquele momento, o garoto Clóvis acabara de perceber que tinha encontrado seu lugar na natureza! Ele encontrara a felicidade!

Comigo foi assim também. Muito embora eu adore meus trabalhos com café (assunto pra outro texto), eu encontrei a felicidade no meu primeiro dia como monitor de Geometria Analítica, em 2011. Ali, em frente aos colegas, percebi que nunca mais na minha vida eu queria sair daquele lugar onde eu estava!

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Dinheiro, fogo, e um clima impróprio para a respiração

Recentemente participei de uma reportagem de uma rádio aqui de Minas cujo tema era “Café: nosso grão de ouro do agro”. O programa foi muito bem estruturado, mostrando o trabalho do agronegócio na busca por produtividade e o trabalho do pequeno produtor pela qualidade da bebida que servimos à mesa.

De modo a fomentar o cultivo desse “grão democrático”, como citado na reportagem, iniciativas privadas e governamentais, tais como concursos e premiações, incentivam o trabalho no campo, reconhecendo o valor do pequeno produtor rural nessa cadeia onde ele é responsável por boa parte da produção desse país.

Isso tem mudado a vida desses pequenos produtores, e seria uma tolice não reconhecer o trabalho feito, inclusive, por iniciativas individuais, como a do meu amigo Samuel Mangia, em Baependi, região da Mantiqueira de Minas. Lá ele incentiva os produtores locais a plantarem café de qualidade, oferecendo consultoria, know-how, orientações e suporte técnico, tudo gratuitamente, de modo a agregar valor nas suas pequenas produções para vende-las bem, e não por uma tutaméia  às grandes indústrias do café.

Curioso é que, por mais que você mostre o quanto isso tudo é legal, em momento algum se falou, nem por mim aqui nem pela reportagem, para quais mãos se destinam os milhões de reais de verbas para o agronegócio. Sim, faço distinção entre agronegócio e agricultura familiar por razões óbvias. Ou você acha que aquele pequeno produtor no interior do país que cultiva sua lavoura em meio hectare de terra coloca as mãos em algum dinheiro de fomento do agro? Ou você acha que ele anda ateando fogo em mato, transformando em vapor tóxico o ar que respiramos? Nisso o pequeno produtor rural nada tem a ver, afinal, ele não é doido de queimar sua pequena propriedade correndo o risco de perder tudo, casa, família, propriedade.

Nem o próprio produtor familiar se reconhece como parte do agronegócio. Ele está completamente à margem dos grandes investimentos, bem como tem as mãos limpas quando o assunto são essas queimadas infernais. O pequeno produtor rural, que engrandece a agricultura desse país é o homem simples, do campo, que tira o próprio sustento da terra. Ele, sim, alimenta a minha família, a sua família, e não a grande indústria do agronegócio, liderada por coronéis mercenários Brasil afora, apoiados por uma bancada ruralista criminosa e covarde, que tem sangue nas mãos e grande responsabilidade por esse clima impróprio para a vida que temos vivido ultimamente.

Recentemente fiz algumas viagens pelo interior de Minas e tive a oportunidade de conversar com alguns desses pequenos produtores. Eles não se dizem do agro. Eles se recusam a serem chamados de fazendeiros. Tudo isso eles deixam para os grandes que te manipulam, dizendo que o agro é pop, que o agro alimenta sua família, que gera riqueza para o país. Conversa fiada. Quem te alimenta é a agricultura familiar. O resto é propaganda e falácia.

Faça um favor a si próprio e valorize o pequeno produtor rural. Ele não recebe milhões do governo, ele não ateia fogo em floresta. A ele, sim, apoio total e irrestrito! Todo respeito, admiração e agradecimento.

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...