Dia desses eu terminei de ler Ensaio sobre a Lucidez, do autor português, único prêmio Nobel nessa língua, José Saramago. Sabe-se que o homem tem fama de difícil. Uma escrita intricada, sem pausas, uso de pontuação pouco convencional, longos períodos e parágrafos imensos. Apesar de ser favorável ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, afirmou que não ia deixar de escrever como sempre escreveu, ou seja, com as próprias regras, o que, por si só, já era antagônico à norma culta vigente naquela época. Mas afinal, o que é a arte senão uma manifestação transgressora? Um movimento que contrapõe a lógica, os preceitos do comportamento humano e seus costumes? Nisso, não se pode negar, Saramago é um gênio da raça!
Eu já tinha lido tempo atrás o Ensaio sobre a Cegueira, talvez seu título mais famoso aqui no Brasil, muito provavelmente em função do filme homônimo dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. O livro narra um grande evento nominado “a cegueira branca”, em que seus personagens, inexplicavelmente, ficam cegos um após o outro, dia após dia. Mas não era aquela cegueira negra, escura, mas a branca, como que mergulhados num imenso copo de leite, sem enxergar um único palmo diante do nariz. Claustrofóbico e repugnante!
Pois bem, li esse ensaio (sobre a cegueira) já sabendo da existência do outro (o a lucidez), e da ligação que existe entre os dois, que até então eu desconhecia. Esse, (o da lucidez) assim como o outro (o da cegueira), trata de uma epidemia branca. A dos votos em branco.
Saramago narra os eventos de uma certa capital sem nome, de um país desconhecido, onde quase 90% da população votou em branco nas últimas eleições. Mesmo repetindo as eleições na semana seguinte, como assegura a legislação vigente, o fato se repete, e nem o p.d.e. (partido da esquerda), o p.d.c. (partido do centro) ou o p.d.d. (partido da direita) alcançam votos válidos que os perpetuem no poder. Essa “manifestação branca” desencadeia uma série de acontecimentos onde os governantes daquele país, não muito diferente dos demais, são levados a uma histeria coletiva que faz com que eles tomem as medidas mais grotescas para encarar a situação, dentre elas sitiar a cidade. Sem governo, polícia, sindicato ou qualquer outro órgão que garanta a ordem, a população é obrigada a se virar como dá.
À medida em que a narrativa avança, fica claro que esse ensaio (sobre a lucidez) é uma continuação daquele outro ensaio (o da cegueira), mais precisamente quatro anos depois, no mesmo país desconhecido. Até mesmo os personagens principais daquele ensaio (o da cegueira) retornam! O médico, a mulher do médico, o primeiro cego, o velho da venda preta, a rapariga dos óculos escuros e ele, claro, o melhor, o que salva o dia, o que faz renascer a esperança de todos: o cão das lágrimas! Simplesmente fascinante, genial!
Agora você já sabe o que esperar desse ensaio (o da Lucidez). Tão impressionante quanto o da cegueira, ele vai te guiar pelo mais íntimo submundo do ser humano, e o que ele é capaz para se reorganizar, para dominar, para conter... pelo poder!