terça-feira, 19 de agosto de 2025

Sustos, assaltos e camisas de bandas de rock

Dia desses, o meu cronista favorito, Leo Aversa, publicou um texto, que você pode ler aqui, que me fez recordar uma adolescência já distante. Nesse texto, Leo conta como ele, em suas próprias palavras, “um sujeito de meia-idade, com óculos bifocais e barba grisalha”, montado na sua lambreta de estimação, com seu filho adolescente na garupa, assustou uma senhorinha com o celular na mão. Ao perceber os dois na moto, ela imediatamente escondeu o aparelho na bolsa e correu pra portaria do prédio onde morava.

Bom, não só no Rio de Janeiro, como em qualquer outra grande cidade, dois sujeitos de moto, se aproximando, independentemente do porte ou da idade deles, é de colocar medo em qualquer um. E na Belo Horizonte da década de 1990 não era muito diferente. Não precisava nem de uma moto para assustar transeuntes desavisados. Bastavam dois adolescentes com camisas pretas estampadas com imagens de bandas de rock.

Explico. Era 1991, o ano do Rock in Rio II, e eu estava encantado com todas aquelas bandas de rock maravilhosas, aquele som pesado, letras de protesto e atitude. Tudo o que eu queria, nos meus 12, 13 anos, era ser como meus ídolos do rock. Assim, eu usava cabelo comprido, jeans rasgados e, com o trabalho de garçom nos finais de semana, consegui reunir uma invejada coleção de camisas que estampavam essa minha paixão. Na sua maioria preta, não importava o local, o clima ou a temperatura, você certamente ia me ver usando essas camisas. “O garoto que só usava camisa de banda de rock”, como eu era conhecido na escola onde estudava.

Pois bem. Acontece que, certa vez, eu estava com um amigo, que compartilhava o mesmo hábito que eu, a caminho de casa, os dois andando lado a lado na calçada, conversando distraidamente, quando encontramos, na mesma direção e sentido, uma mulher caminhando com um bebê no colo. Andávamos mais rápido e, para passar por ela, meu amigo foi para um lado e eu para o outro. Tão logo passávamos ao seu lado, ela, apavorada, olhou primeiro pra mim, depois para meu amigo, abraçou com força seu bebê sem conseguir disfarçar o susto. Ela estava ali, completamente desprotegida, já esperando pela voz de assalto que daríamos a ela. Coitada. Depois que sumimos da sua vista, ela deve ter conseguido controlar as pernas trêmulas e o coração disparado.

Em outra situação, com esse mesmo amigo, ele com uma camisa do Iron Maiden, eu com uma do Sepultura, aguardávamos uma mesa ser desocupada na praça de alimentação do shopping. Estávamos em pé, ao lado de uma mesa onde tinham quatro senhoras sentadas, já prontas para ir embora, quando elas notaram nossa presença. O susto foi generalizado: todas, mais que depressa, se apressaram pra pegar e esconder as bolsas que estavam em cima da mesa. Olhamos um para o outro e caímos na risada.

Divertíamos bastante com essas situações. Nem passava pela nossa cabeça fazer mal a alguém. Éramos dois adolescentes que só queriam escutar suas músicas, curtir nossos ídolos e mostrar para o mundo essa nossa paixão. Como diz a poesia do Thaíde e DJ Hum, “Que saudade do meu tempo de criança, que tempo bom, que não volta nunca mais”.

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