terça-feira, 21 de abril de 2026

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao assunto principal da convenção, favorece algumas observações curiosas, daquelas que só quem tá de fora vê. Mesmo procurando bastante, falhei em encontrar algo relevante que valesse algumas linhas por aqui. No entanto, almoçando com a turma que trabalhou comigo, veio a pérola.

Éramos quatro na mesa, comendo uma deliciosa parmegiana, quando um deles, um garçom que trabalha 12 x 36 e faz freela nos dias de folga pra complementar o orçamento, falou:

 - Colocaram arroz no meu prato! Eu não como isso de jeito nenhum!

Uma colega respondeu:

 - Eu não entendo que dieta maluca é essa! Você encheu a barriga de pão a manhã inteira, e agora se recusa a comer arroz!

Ele retrucou:

 - Não é isso. Eu não dou conta de comer arroz e feijão. Isso não me desce de jeito nenhum!

Pensei em fazer uma gozação, dizer que essa ração oferecida pelo governo era realmente uma vergonha, mas optei por permanecer calado. O discurso do sujeito continuou.

 - Tudo nesse governo tá errado! Não é porque eu não voto na esquerda, mas o que tem que ser feito é rasgar essa constituição e começar tudo do zero! Do jeito que tá, o país não vai pra frente!

Ainda bem que fiquei calado, pensei. E assim permaneci, porque, claro, o negócio só piorava. O sujeito tinha trabalhado o primeiro dia de evento todinho sem parar nem pra almoçar, porque tinha que bater a meta. Quer dizer, a ração do governo ele não come, mas tudo bem ser escravizado pelo patrão.

 - Eu até bebo café em casa, quando minha mãe faz, mas o que eu gosto de beber logo cedo quando acordo é vinagre de maçã com água solarizada e sal integral.

Pronto, já não faltava mais nada pra completar o personagem. Pobre, de direita, negacionista, puxa-saco do patrão e cidadão de bem, afinal, roubava lanches do patrão pra encher a própria barriga e dos colegas.

Que cidadão exemplar! Sonho de consumo da burguesia fedida brasileira!

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