terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Rock, anos 1990 e audições instantâneas

Na zero hora de sexta-feira, dia 22 de janeiro, o Megadeth, uma das maiores bandas de Heavy Metal do mundo, liderada por Dave Mustaine, lançou nas plataformas de streaming seu derradeiro álbum, que veio para encerrar uma carreira de mais de 40 anos. Muito embora os lançamentos musicais, tais quais conhecemos hoje, já estejam enraizados, é curioso lembrar como era esse processo antes da era digital.

Outubro de 1997. As rádios, eufóricas, anunciavam  o lançamento do quarto álbum de estúdio da banda brasileira de maior sucesso da época, os Raimundos. Lapadas do Povo, com uma sonoridade madura, letras sérias, de protesto, viria para consolidar a banda como uma das mais importantes e influentes do rock nacional. Dia 27, nas melhores casas do ramo!

Eu já tinha ido a várias lojas procurar esse disco, e a resposta era sempre a mesma: “Ainda não chegou”. Até que, bastantes dias após a data marcada, eu já ia embora, desolado, de mais uma loja, quando o vendedor veio atrás e me chamou: “Espera! Acabou de chegar! Só vamos desembalar os CDs e cadastrar no sistema pra liberar a venda!”. Ufa, pude sentar tranquilo numa lanchonete enquanto esperava pra comprar e escutar o som novo da minha banda predileta.

Era com essa ansiedade toda que aguardávamos os lançamentos. Era algo a mais além daquele momento mágico de chegar em casa e escutar as músicas pela primeira vez. Magia pura! Se a banda era gringa, ainda tínhamos que esperar semanas, talvez meses, após o lançamento mundial, pra começar a ter cópias à venda aqui no Brasil, numa época em que os downloads ilegais ainda eram inviáveis, visto a internet precária que tínhamos por aqui. O jeito era esperar.

Hoje, numa fração de segundos a música está disponível no mundo inteiro, sem espera nem ansiedade. No caso do Megadeth teve algo diferente, a exibição nos cinemas de um documentário, com o Dave Mustaine comentando as músicas do disco e contando outras histórias sobre a banda. Mas isso é assunto pra outro texto.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Potencial Hidrogeniônico, infância e um pedaço de torta de morango

Essa aconteceu com um colega da faculdade, o predestinado professor de química Paulo Henrique, vulgo PH. Foi meu professor, depois colega quando eu comecei a dar aulas, e fez parte da minha banca de mestrado. Lembrei da história por causa da infestação de coachs mirins pela internet. Sim, aqueles garotos cheirando a leite querendo te dar lições financeiras, conselhos amorosos, ou simplesmente te dizendo que a faculdade é perda de tempo e que a matemática é inútil.

Pois bem. Certo dia, antes de voltar pra casa, PH passou numa famosa doceria aqui da cidade. Foi prontamente atendido por um simpático balconista, que lhe abriu um grande sorriso ao perguntar:

- Boa tarde, chefia! O que vai ser pra hoje?

PH tinha endereço certo! Uma torta de morango que acabara de chegar ao balcão, a preferida da sua filha mais nova.

- Eu vou querer 1/4 dessa torta de morango. Pra viagem, por favor.

O simpático balconista, ressabiado, quis confirmar o pedido:

- O senhor vai querer a torta inteira?

Intrigado, PH o corrigiu:

- Não, eu só quero um quarto dela.

O simpático balconista, depois de uma breve reflexão, parece ter matado a charada:

- Ah, entendi agora! O senhor vai querer é a METADE da torta!

PH percebe a dificuldade do simpático balconista e, com a didática de um excelente professor, não deixa dúvidas:

- Não. Você vai pegar essa torta inteira, vai parti-la em quatro pedaços iguais, e vai me dar um desses pedaços pra eu levar.

Com brilho nos olhos, enquanto embrulhava o pedido, o simpático balconista não se furtou em contar para o colega de balcão a boa nova que ele tinha acabado de aprender!

Ninguém é obrigado a saber tudo, e a humildade do simpático balconista nem é um problema. O que importa é a sede pelo conhecimento. O problema começa é quando adulto ordinário decide lucrar em cima de criança, que devia estar na escola, brincando na rua, convivendo amorosamente com a família. E não em podcasts duvidosos, regurgitando asneira, condenando a própria infância ao fracasso.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carros, coisa de mulher e um dia ensolarado

Essa semana aconteceu algo semelhante ao que me aconteceu um tempo atrás, coisa de um ano. Como daquela vez eu me arrependi da minha atitude (xinguei, briguei, e quase saí no braço com um desconhecido), dessa vez tentei uma abordagem diferente. Sorte a minha.

Chegando em casa me deparo com um carro obstruindo parcialmente a entrada da minha garagem. Sinalizei minha intenção de guardar o carro, mas a senhora com o celular na orelha retirando um bocado de tralha do porta-malas nem notou  minha presença. Comecei a manobrar pra ver se a senhora ligava o simancol. Nada. Atravessei o carro na rua, pra entrar de ré, obstruindo completamente o trânsito, e tentei passar. Não funcionou. Parecia que a senhora estava no mundo invertido.

A essa altura já havia dois carros parados na rua, esperando o desenrolar da História. Como detesto buzinar, a não ser numa emergência, desci do carro pra despertar a senhora do transe em que ela se encontrava. Mal abri a boca, e um dos carros esperando passagem buzinou e, como num passe de mágica, a senhora finalmente me percebe:

- Você tá querendo entrar na garagem?

- Sim, estou! - respondi, fazendo uso do grau máximo da minha ironia debochada, mal conseguindo disfarçar a irritação.

- O senhor me desculpe! É que meu carro furou o pneu e eu parei aqui de qualquer jeito pra pedir ajuda! Um minuto e eu já tiro!

Era só uma senhora, muito simpática, precisando de ajuda. Voltei pro carro morrendo de vergonha, e foi só dela descer alguns centímetros pra eu conseguir o acesso a garagem. Os dois carros aguardando seguiram viagem.

Devidamente estacionado, ainda com vergonha, fui me oferecer pra ajudar. Era o mínimo.

- Não precisa, meu filho! Tô com meu genro ao telefone, ele tá aqui pertinho, e já vem me ajudar. Eu até sei trocar pneu, sabe? Mas é que o dia tá tão quente e, pra falar a verdade, isso nem é coisa pra mulher fazer!

Então me despedi, aliviado pela senhora, cuja ajuda já estava a caminho, e orgulhoso por não ter cometido o mesmo erro do passado! Pensa no vexame que ia ser.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Uma viagem, um jardim e um pouco de lixo reciclado

 Dia desses fui para o Espírito Santo visitar parentes, e dado a minha desconfiança com os aviões, eu viajo de ônibus sempre que posso. Sem problemas. Vou sempre à noite, tomo um relaxante muscular pra não enjoar e pra facilitar o sono, um bom fone de ouvido e só acordo chegando lá.

A rodoviária de Belo Horizonte é um marco arquitetônico tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal. No ano da sua inauguração, 1971, era o maior terminal rodoviário da América do Sul. É um prédio antigo, mas bonito. Tem uma área externa, ornada com um belo jardim e uma vista parcial da cidade, ideal pra você que não quer ficar em meio à confusão de passageiros enquanto aguarda sua partida.

Comprei um lanche e me sentei lá fora. Era noite, o clima agradável, poucas pessoas. Depois de comer, senti que o relaxante começava a fazer efeito. Avistei um daqueles pontos de coleta seletiva, onde cada lixeira tem uma cor específica pra cada tipo de lixo. Amarelo, verde, azul, vermelho, estavam todas lá, porém, sem identificação escrita que auxiliasse os desavisados como eu. Mas uma rápida consulta no Google resolveu a questão. Direcionei os restos de papel pra lixeira azul, e o plástico direto pra vermelha.

Foi quando uma senhora se aproxima, com um único saco preto à mão, para esvaziar as lixeiras. Com uma habilidade invejável, ela segura o saco com uma das mãos enquanto usa a outra pra virar a lixeira azul, esvaziando-a.

Bom, ela vai levar os papeis e depois volta com um saco novo pra buscar os demais recicláveis, pensei. Mal concluí o pensamento, e a senhora já estava com a lixeira verde na mão despejando, no mesmo saco, o seu conteúdo. E assim ela fez com as outras lixeiras. O lixo, devidamente descartado por gente preocupada igual a mim (ou não), indo parar no mesmo lugar, no mesmo saco. A senhora retornou pra onde viera, decerto sem um pingo de dor na consciência.

Perplexo, joguei a mochila nas costas e desci para o embarque, torcendo pra que aquilo tudo fosse apenas uma alucinação provocada pelo abuso de relaxantes musculares.

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...