quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Sacolas, gente humilde e um café muito amargo

Certo dia estava numa pausa para um café, no cômodo de um apartamento que a empresa onde eu trabalhava tinha transformado num laboratório de análises de espumas. Esse cômodo tinha uma janela com vista para a rua, e eu me sentava próximo a ela de modo a observar o movimento das pessoas enquanto eu tomava meu café frio e amargo. Foi então que eu vi a senhora das sacolas enormes.

Duas sacolas enormes. A senhora vinha descendo a rua até entrar a esquerda num lote baldio em frente a fábrica. Um grande descampado que acabava numa descida próxima a um matagal. E a senhora seguiu com as sacolas enormes, uma de cada vez, até sair da minha vista nesse matagal.

Sacolas enormes. Inicialmente ela entrou no meu campo de visão com apenas uma dessas sacolas, carregando-a com as duas mãos num tremendo esforço. Ela deve ter andado entre dez e quinze metros, parou, desceu a sacola enorme na calçada, e voltou para onde veio, com as mãos vazias. Não tive muito tempo para pensar a respeito, tampouco sabia o que estava por vir, quando a senhora reaparece com outra sacola, tão grande quanto a primeiro, também carregando-a com as duas mãos, andando na mesma direção que havia deixado a primeira sacola. Só que ela não para nesse mesmo lugar. Ela segue adiante, passando pela primeira sacola e só para uns dez metros depois da primeira sacola, já na direção do grande descampado. Da mesma forma, desce no chão a segunda sacola, e volta com as mãos vazias até onde havia deixado a primeira sacola. Com as duas mãos, ergue a primeira sacola e segue na direção da segunda, sem parar ali, mas mais adiante, agora já quase na descida próxima ao matagal. Desce no chão a primeira sacola, se certificando de que ela não cairia e fosse ao chão seja lá o que tivesse dentro dela.

Enormes. E o ciclo se repete. Ela volta de mãos vazias até a segunda sacola, ergue-a do chão com dificuldade, caminha em direção à primeira, mas só para depois de alguns metros dela, agora já na descida próxima ao matagal, fora do alcance da minha visão. Volta de mãos vazias para buscar a primeira, para daí sumir definitivamente.

Tudo isso foi muito rápido, questão de minutos. Durante esse tempo eu estive paralisado observando a cena. Nem se eu quisesse, conseguiria ajudar. Deixar a sala, caminhar até a portaria, subir um trecho da rua já seria o suficiente para a senhora sumir de vista na descida do matagal.

Mas foi tempo suficiente para o meu café esfriar e amargar ainda mais, e eu perder completamente o interesse por ele. Aquela cena jamais me saiu da cabeça. E isso já tem perto de uns dez anos, talvez. Jamais eu deixei de imaginar como as pessoas se viram diante das dificuldades, e que nada parece ser barreira para que as coisas sejam feitas. Sem recursos, sem ajuda, sem alguém que olhe por elas... Nada é deixado para depois, nada é deixado de fazer, vai levando, fazendo, acontecendo. Vai em frente, como canta Chico Buarque:
Igual a como quando eu passo no subúrbio

Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar

E aí me dá uma inveja dessa gente

Que vai em frente sem nem ter com quem contar

É gente humilde. Que vontade de chorar.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Trapaça no xadrez e uma obsessão por relógios de pulso

Desde o dia 11 de outubro acontece o Qatar Masters Open Chess 2023, terceira edição do torneio aberto de xadrez do Catar. Por ser aberto, você pode se inscrever para concorrer a parte dos US$108.000,00 de premiação total, desde que você seja titulado como mestre de xadrez pela Federação Internacional de Xadrez – FIDE, e ter, no mínimo, 2300 pontos de rating FIDE (que está para o xadrez assim como o ranking da ATP está para o tênis). A fim de promover o evento, alguns jogadores da elite do xadrez mundial foram convidados a participar, dentre eles o Grande Mestre norueguês Magnus Carlsen, número 1 do mundo desde julho de 2011 e campeão mundial desde 2013. E é com ele que a polêmica começa.

Voltando um pouco no tempo, em 2022, na Copa Sinquefield realizada em St. Louis, Missouri, Carlsen abandonou o torneio depois de perder uma partida da terceira rodada para o Grande Mestre americano Hans Niemann. Muitos interpretaram essa saída como se ele acusasse Niemann de trapacear na partida entre os dois, acusação que se concretizou posteriormente, com ambos os jogadores sendo acionados entre si na justiça. O caso é que houve muita discussão, muita ladainha, mas nada foi provado, com os processos sendo arquivados recentemente, culminando num mútuo pedido de desculpas entre os jogadores.

Agora, em 2023 no Catar, algo parecido acontece. Na segunda rodada do torneio, Carlsen perde para o jovem Grande Mestre de 22 anos Alisher Suleymenov, do Cazaquistão. Mais tarde, numa rede social, Carlsen se diz completamente arrasado pela derrota, parabeniza o GM Suleymenov pela brilhante vitória, mas acusa a organização do evento de permitir que seu oponente jogasse com um relógio no pulso. Carlsen afirma que não conseguiu mais se concentrar na partida depois de perceber esse relógio, o que pode ter sido fator decisivo para sua derrota. Ele lembra ainda que nenhum adorno desse tipo é permitido na arena de jogos, segundo o próprio regulamento da FIDE, como anéis, canetas, tampouco um relógio, mesmo que mecânico, como era o caso.

Nos tempos modernos, onde reina a tecnologia, todo cuidado é pouco para preservar o fair play durante partidas de xadrez, sejam elas online ou presenciais.

Relembrando outro fato curioso envolvendo relógios, chegamos ao GM Garry Kasparov, russo que dominou os tabuleiros no fim do século passado, sendo campeão do mundo de 1985 a 1995. Numa época em que a tecnologia não assustava tanto, Kasparov tinha por hábito usar justamente um relógio que, depois de fazer seu primeiro lance, era retirado do pulso e colocado sobre a mesa, ao lado do tabuleiro. Assim, quando ele percebia que a partida estava ganha, antes mesmo dela ter terminado, ele recolocava o relógio no pulso, como que um sinal para seu oponente: “Abandone logo a partida, meu caro, que eu não tenho tempo a perder”.

Claro, já teve muito jogador que deixara Kasparov tão perplexo com sua derrota que fizera com que ele se esquecesse de recolocar o próprio relógio após a partida!

O GM Victor Korchnoi, outro russo, já dizia: “Nenhum Grande Mestre de xadrez é normal. A única diferença entre um do outro é o tipo de loucura.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Stephen King, behaviorismo e cones de sinalização

Quando digo que Stephen King é meu escritor favorito, muitos dizem: “mas como pode ler esse lixo?”. Talvez o gênero popular não agrade certos leitores, mas a maioria que diz isso nunca pegou num livro dele; no máximo assistiu algum filme baseado num livro que, convenhamos, acumula péssimas adaptações.

Entretanto, um pouco de cultura e estudo se faz necessário para compreender muitas passagens de sua obra. Por exemplo, na introdução de Dissecando Stephen King, um livro organizado por Tim Underwood e Chuck Miller com várias entrevistas cedidas pelo King, ele fala de quando lecionava inglês, de como os alunos pareciam com “cães de Pavlov”. Mesmo ele dando uma dica do que se trata (éramos condicionados a começar a falar – salivar – ao primeiro toque da campainha, e a se emudecer ao segundo toque, alguns minutos depois) duvido que algum crítico tenha capacidade de entender o que ele diz naquele momento. Aliás, depois de alguns anos, ele acaba se conformando com sua fama entre os críticos.

Outro exemplo é no conto O Nevoeiro, do livro Tripulação de Esqueletos. No princípio, quando estão todos presos naquele supermercado, David se vê dentro de uma grande “caixa de Skinner”. Claro, não o Skinner diretor da Escola Elementar de Springfield, mas o grande psicólogo americano, pai do behaviorismo, ramo científico da psicologia.

Óbvio que desconhecer esses conceitos não interfere no entendimento da obra. Mas vejo a leitura como um montante de pequenos prazeres. Os grandes autores sempre se preocupam em escrever da melhor forma possível, em usar a palavra mais certa, em harmonizar frase a frase do texto. O mínimo é reconhecer esse esforço, e não simplesmente deixar de entender uma passagem imaginando que ela não vá fazer falta no contexto geral.

***


No início de carreira, as coisas nem sempre eram fáceis para a família King. Todavia, algumas vezes a solução parecia cair do céu.

Numa ocasião, andando pelas ruas do Maine, Stephen vê cones de sinalização durante todo o percurso. Decerto alguém os esquecera lá após realizar algum serviço de manutenção viária, ou algo do tipo. O fato é que isso o irritou profundamente e, aproveitando estar com sua caminhonete, saiu recolhendo os cones, um por um, a fim de levá-los ao departamento de trânsito da cidade, e registrar uma reclamação.

Acontece que, depois de recolher vários deles, King fora interceptado por uma viatura policial. O guarda então desce da viatura, olha para os vários cones na caçamba da caminhonete, fita King com cara de velhaco e pergunta: “Esses cones por acaso te pertencem, filho?”

King fora intimado a prestar depoimento no tribunal da cidade, e condenado a pagar uma multa de 250 dólares.

Há muito King não recebia nada pelos seus contos enviados a revistas masculinas populares, e o dinheiro da família mal dava para os remédios do recém-nascido Joe. Faltando um dia para o pagamento da multa, eis que King recebe pelo correio um cheque nominal de 250 dólares da revista Cavalier, referente à publicação de um conto enviado há mais de seis meses, e que até então não tinha sido utilizado pela revista. Um ser iluminado, sem sombra de dúvidas!

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Uma história antiga e um afago no coração

Quando me propus a desenterrar um blog, como aqueles do início desse século, período em que esse tipo de publicação era muito popular, eu já tinha algumas coisas escritas, mas que careciam de uma revisão, afinal, ideias podem estar desatualizadas para o que se pode apresentar hoje. Curioso ter contato com essas coisas escritas há algum tempo. Isso te proporciona fazer uma leitura de você mesmo, em uma época remota.

O texto a seguir eu escrevi baseado numa história contada por Oscar Niemeyer à Paulo Henrique Amorim, ali por volta de 2008, que me tocou profundamente pois, anos antes, pude presenciar uma história muito parecida. Eu a chamo de "O coração do Oscar".

Certo dia Oscar Niemeyer chega ao escritório para mais uma jornada de trabalho. Com o pensamento entre curvas e concreto armado, logo na entrada do prédio se depara com uma criança suja e mal alimentada vendendo doces. Oscar se sensibiliza com o garoto e lhe compra algumas balas, para depois seguir em direção ao elevador que o leva para o escritório. No curto trajeto entre o saguão e sua sala, Oscar pensa: “Isso não é justo. Assim como sobe esse elevador, sobe também a miséria daquele garoto”.

Chegando em sua sala, Oscar liga para a segurança e pede que lhe tragam aquele garoto vendedor de balas. Sobe então o garoto até a sala de Oscar, que quis saber onde ele morava, se estudava, e onde estavam seus pais. O garoto responde que morava ali mesmo na rua, que nunca havia entrado numa escola, e que não sabia por onde andavam seus pais.

Uma empregada de Oscar, uma portuguesa muito generosa, ouvindo aquele diálogo, veio a intervir: “Seu Oscar, deixa que eu o levo para casa. Meu marido é chofer de praça, vive a trabalhar, o garoto me será uma boa companhia”. Oscar assentiu.

Duas semanas depois a portuguesa, agora muito assustada, chora junto ao Oscar: o garoto sumira! Sem uma explicação, sem deixar um rastro.

Passados alguns dias, para surpresa de Oscar, o garoto, maltrapilho e maltratado, reaparece em seu escritório. Se diz arrependido da fuga, e que estava disposto a ser educado. Oscar o recebe de bom grado. Oferece um banho quente, lhe veste com roupas novas, matricula-o em uma boa escola, e mais uma vez a portuguesa generosa o leva para casa.

Mas a alegria não durou muito. Mais uma vez o garoto desaparece inexplicavelmente. Oscar, meio que já conformado com a história, reflete: “Decerto ele sofre do mal que assola a maioria das pessoas na sua situação. O mal de se recusar a ser educado, de não estar habituado a ter um lar, uma cama quente, roupas limpas e uma pessoa que se importe com ele. Estava acostumado, sim, ao corre-corre noturno, às fugas constantes da polícia, aos companheiros de vícios, ao travesseiro de pedra, ao chão frio da rua que lhe serve como cama”. Isso sim. Enfim…
 
Dessa vez o garoto desaparecera definitivamente, a não ser por um telefonema, dez anos depois. Do outro lado da linha uma voz adulta, porém familiar, queria saber se aquele generoso senhor que o acolhera há dez anos estava bem de saúde. “Ele foi um garoto atencioso, se lembrou de alguém que ao menos tentou ajudá-lo no passado”, disse Oscar em pensamento. E sem ressentimentos...

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...