terça-feira, 4 de novembro de 2025

Partidas, partidas e um mineiro sem coração

Essa semana partiu Lô Borges. Ícone gigante, não só nosso, mas do mundo. Sim, ele é do mundo, ele é de Minas Gerais. Mas não vou ficar aqui falando do quanto ele e sua música foram importantes, tampouco do movimento cultural e musical que ele ajudou a criar nos anos 1970. Já vai ter muita gente falando sobre isso esses dias. O que eu quero falar é sobre como eu escutei pela primeira vez o tal Clube da Esquina.

Era 2004, eu tinha 20 e poucos anos, tinha acabado de chegar em São Paulo para começar a trabalhar numa empresa que, por muitos anos, foi meu objetivo, e eu tinha acabado de alcançá-lo. Cidade nova, novas perspectivas, novas amizades. Uma em especial, ainda hoje me faz lembrar daqueles bons tempos.

Nessa empresa trabalhava um supervisor que era um sujeito peculiar. Tinha fama de mal-humorado, mal-educado, mas muito competente. Eu pouco me aproximava dele até que, um dia, por falta de espaço no refeitório da firma, tive que sentar-me à mesa com ele e outros comparsas. Estavam falando de futebol, reclamando de uma partida do Santos. Ele diz:

- Quando vou ao estádio, eu não saio imediatamente quando o jogo acaba. Fico sentado na arquibancada, lendo algum livro do Kafka, esperando o estádio esvaziar.

A simples menção à Franz Kafka, meu autor preferido, me desarmou completamente. A partir dali conversávamos todo dia sobre literatura, que ele adorava também, e jogávamos xadrez com frequência, sobretudo aos sábados, na minha casa ou na casa dele, compridas partidas que não acabam mais. Nos tornamos bons amigos. E conversávamos muito sobre música também. Ele tocava violão clássico, e me falou sobre nomes que eu aprendi a gostar mais ainda por causa dele, como Tom Jobim e João Gilberto, e sobre outros que eu desconhecia completamente, como Turíbio Santos e Dilermando Reis.

Mas a minha ignorância em relação a um nome em especial o deixou profundamente indignado. Num sábado em sua casa, depois de uma partida de xadrez, assistíamos a um DVD, quando ele me disse:

- Você deve ser muito fã desses dois aí cantando, certo? Lá da sua terra, Belo Horizonte!

Minha cara de interrogação me denunciou. Eu simplesmente não sabia quem eram aqueles dois na TV, cantando "Para Lennon e McCartney" tão lindamente. Enfurecido, ele agitava os braços na minha direção:

- Como assim você não conhece Beto Guedes? E Lô Borges? Nunca ouviu falar em Clube da Esquina?? Mas que mineiro mais desnaturado, sem coração!!

Sim, verdade, mas só até aquele dia. Depois, passei a escutar bastante a música maravilhosa desses meus conterrâneos, graças à fúria do meu grande amigo naquela noite.

No ano seguinte fui transferido pra Goiânia, mas ainda falávamos eventualmente ao telefone. Alguns meses depois, inesperadamente, recebo da sua esposa a notícia da partida do meu grande amigo. Foi muito cedo. 50 e poucos anos. A voz trêmula de quem chora ao telefone era quase inaudível:

- Sim, Marconi, meu amor se foi essa noite. Acabou de partir...:'-(

E eu, do outro lado da linha, mineiro que tinha ganhado um coração naquele sábado em que conheci o Clube da esquina, estava agora com ele completamente destroçado...

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