quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Xadrez e um pouco sobre como a vida pode ser

João Guimarães Rosa era viciado em listas. Criava lista de tudo o que se podia imaginar: listas de cidades que conhecia, de palavras, ferramentas, animais, plantas, até lista com nomes de mulheres. Essa era apenas uma das manias desse que é nosso escritor maior, que está para a literatura brasileira assim como Shakespeare está para a inglesa, como Dante para a italiana, como Goethe para a alemã, como Cervantes para a espanhola, como Camões para a portuguesa ou como Púchkin para a russa.

Poderíamos aqui falar ilimitadamente dessa lista dos grandes nomes da literatura mundial, mas isso é assunto para outro texto. Hoje eu gostaria de compartilhar outra lista, com algumas reflexões de grandes jogadores de xadrez acerca desse – jogo? esporte? arte? – acompanhadas por um breve pensamento meu sobre como podemos relacioná-las à nossa vida pessoal e profissional.

Não se preocupe! Não precisa saber jogar xadrez para compreender o que cada Grande Mestre de xadrez diz nessas frases. Mas espero, de coração, que essas reflexões o encorajem a aprender um pouco mais desse jogo fascinante!
Os peões são a alma do Xadrez.
- François-André Danican Philidor. França, 1726 - 1795
Teoricamente o peão tem o menor valor no tabuleiro de xadrez. Vale 1 ponto cada, enquanto a Dama vale 9, cada torre vale 5 e cada cavalo e bispo vale 3. Mas um jogo com uma boa estrutura de peões é decisivo, um grande passo para a vitória. Assim, não deixe que as pequenas coisas, as de pouco valor, passem desapercebidas. Organize-as e tire proveito delas.
O bom jogador sempre tem sorte.
- José Raul Capablanca. Cuba, 1888 - 1942
Mesmo no xadrez, onde sorte é o que menos conta, em alguns momentos ela faz a diferença. Até um excelente profissional precisa dela de vez em quando.
O jogador que tem vantagem deve atacar, ou perderá essa vantagem.
- William Steinitz. Áustria, 1836 - 1900
Se você sente que o momento é aquele, você se sente preparado, e tudo ao seu redor conspira ao seu favor, ATAQUE! Se você perder esse momento, ele pode demorar outra vida para aparecer novamente.
O xadrez é arte e cálculo.
- Mikhail Botvinnik. Rússia, 1911 - 1995
Nenhuma profissão é só teoria e cálculo. Mesmo na engenharia, se você não coloca um pouco de arte e poesia, você nada mais é que um executor metódico de tarefas.
O xadrez, como a música e como o amor, tem a virtude de fazer os homens felizes.
- Dr. Siegbert Tarrasch. Polônia, 1862 - 1934
Se a sua profissão não o faz feliz, assim como a música, o amor ou a literatura o faz, sinto muito, acho que você está no lugar errado…
Quem não assume riscos não ganha a partida.
- Paul Keres. Estônia, 1916 - 1975
Sem o risco a vida não vale a pena. É sempre melhor arriscar do que olhar para todas as outras pessoas que nunca acertam porque nunca se propõe ao risco.
Um plano ruim é melhor do que não ter nenhum plano.
- Frank Marshall. Estados Unidos, 1946
Executar um plano ruim é sempre melhor do que não executar plano algum. Tenha certeza de que essa é a sua melhor opção. Ou ainda, é sempre melhor correr o risco do que olhar para todas essas outras pessoas que nunca acertam porque nunca se propõe ao risco.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Cafés especiais e muitas conexões essa semana aqui em BH

 Começa hoje aqui em Belo Horizonte a SIC – Semana Internacional do Café, que acontece nos dias 8, 9 e 10 de novembro, no Expominas, apresentando esse ano o tema ORIGENS PRODUTORAS - UMA VISÃO DE FUTURO PARA UMA NOVA CADEIA DO CAFÉ. Será minha sétima - e última - participação como barista que apresenta os cafés do Maciço do Baturité, uma região de 800 metros de altitude localizada no sertão do Ceará, a 100 km de Fortaleza, constituída pelos municípios de Baturité, Guaramiranga, Mulungu entre outros.

Esses produtores, há mais de 200 anos, têm alcançado resultados incríveis nesses cafezais sombreados em meio a um dos poucos vestígios de Mata Atlântica que ainda existem pelo interior do Brasil. As ingazeiras são as principais responsáveis por fornecer sombra aos pés de cafés, entre eles os últimos pés da variedade typica que ainda dão bons frutos com uma produtividade razoável.

Além de provar os cafés do Ceará, você vai ter a oportunidade de se conectar com todo esse universo particular que proporcionará experiências diversas. Seja um apreciador iniciante ou um empresário do ramo, haverá espaço para que todos aproveitem os campeonatos, cursos, palestras, nos mais variados níveis, sobre cultivo, pós-colheita, torra, negócios, além da fascinante troca de experiências que sempre ocorre nos corredores do evento, entre um copo e outro da mesma bebida.

Para você que é novato ou apenas um coffeelover entusiasta desse mundo que se apresenta cheio de possibilidades, deixo algumas dicas importantes que me fizeram muita falta quando das minhas primeiras participações. Você vai conhecer gente muito legal, apaixonada, disposta a conexões verdadeiras, a te apresentar bebidas exóticas, a conversar sobre as nuances que permeiam os sabores, as notas da bebida, enfim, propensa a te ajudar sobre os cafés especiais. E você vai se sentir enfeitiçado por tudo isso, vai querer fazer parte dessa galera que fala bonito, é aficionada pelos processos do café e tem todo um estilo de vida baseada nessa paixão. Aviso: será um caminho sem volta!

Por outro lado, pode ser que você encontre uma outra turma, tão apaixonada quanto a primeira, mas inconveniente, que vai fazer de tudo para tentar impor a você o jeito certo de beber café, como se tivesse uma única forma válida de fazê-lo. Esses são os coffeechatos, que vão te proibir de colocar açúcar no café, vão dizer que o certo é tomar café frio, é comprar café em grão, pois moído não presta; que você precisa comprar utensílios sofisticados de extração, balanças, moedores, diferentes filtros... um verdadeiro arsenal de tralhas para você que quer apenas elevar o nível da sua bebida e tomar um bom café no seu dia a dia.

Não caiam nessa! Como já disse um sábio por aí, “o melhor café do mundo é aquele que a gente gosta”. Você, definitivamente, não precisa de equipamentos caros para tomar o melhor café do mundo na sua casa. Você precisa de um café de qualidade e um senso para manter aquela receita que mais te apeteceu. Nada mais.

Quer conversar mais a respeito? Vem tomar um café comigo! Procure pelos “Cafés do Ceará”, que tenho certeza de que teremos ótimos papos!

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Narrativas singulares e bate-papos com os mortos

Terminei recentemente a leitura de Depois, do Stephen King, esse que é, desde os meus 12 anos de idade, quando me aventurei na leitura de O Iluminado, meu autor preferido, mesmo tendo lido pouco mais de 20 dos mais de 70 livros por ele publicado.

Basicamente o livro conta a história de um garoto que consegue conversar com o espectro de pessoas que morreram proximamente de uma semana ou mais, e extrair delas respostas para suas perguntas. Detalhe: os mortos não podem mentir! Um típico romance policial com altas doses de sobrenatural.

Nesse livro encontramos elementos típicos da maior parte da produção do King. A narrativa envolvente, um ritmo que oscila, ora suave, ora frenético, um texto muito agradável de se ler, com diálogos inteligentes e frases bem construídas, coisas de um autor que já está nesse ramo há mais de 50 anos.

Outra questão interessante que se dá nas suas narrativas é quando ele descreve um evento aparentemente corriqueiro, e então é introduzido um novo elemento que ele não havia descrito antes, mas que te dá uma nova visão do evento que ele acabara de descrever, te fazendo, por vezes, ter que reler o trecho descrito em busca de alguma informação que você acha ter perdido. Mas não, você não perdeu nada. Era aquilo mesmo, e essa releitura, de certo modo, é como a releitura de um livro que você já sabe o que vai acontecer no final.

E é o que acontece nesse livro. Numa das passagens, você só descobre que certo diálogo se dá com uma pessoa morta próximo do fim desse diálogo, e o King faz esse jogo com uma maestria de poucos!

Outra característica, mais presente, é quando a história está apenas começando, num ritmo tranquilo, numa rotina adorável que você não quer que acabe, mas sabe que inevitavelmente vai acabar, e quase sempre de forma trágica! As personagens estão lá, vivendo suas vidinhas pacatas, e de repente o tapete é puxado, e tudo vira de pernas para o ar! Você é arrancado da sua zona de conforto de tal modo que demora a recobrar o equilíbrio, como se estivesse vivendo ali aquela vida junto das personagens.

São poucas as histórias do King que já começam em meio ao caos. Misery é um bom exemplo disso, quando na primeira página já acompanhamos os devaneios de Paul Sheldon em função do seu grave acidente na neve, e em noutro livro, Celular, já temos uma socialite arrancando com uma mordida um pedaço do braço de um sujeito na fila do sorvete logo na terceira página!

Você pode até não gostar desse estilo de literatura, mas também não pode negar que o homem escreve como poucos. A escrita dele é quase que um organismo vivo, ela corre por si mesma. É envolvente e acessível, como toda literatura deveria ser. Ele é um fenômeno e muitas vezes é censurado por isso. Os detentores do saber, aqueles que se acham intelectuais por apreciarem somente a alta literatura (e que raios seria essa alta literatura?) são os que mais tripudiam acerca do assunto. Para esses, a arte tinha que ser inacessível, incompreendida pelas massas. Independentemente do tipo de produção, eles acreditam que a arte deveria estar nas mãos de poucos. Tolos.

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...