quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Stephen King, behaviorismo e cones de sinalização

Quando digo que Stephen King é meu escritor favorito, muitos dizem: “mas como pode ler esse lixo?”. Talvez o gênero popular não agrade certos leitores, mas a maioria que diz isso nunca pegou num livro dele; no máximo assistiu algum filme baseado num livro que, convenhamos, acumula péssimas adaptações.

Entretanto, um pouco de cultura e estudo se faz necessário para compreender muitas passagens de sua obra. Por exemplo, na introdução de Dissecando Stephen King, um livro organizado por Tim Underwood e Chuck Miller com várias entrevistas cedidas pelo King, ele fala de quando lecionava inglês, de como os alunos pareciam com “cães de Pavlov”. Mesmo ele dando uma dica do que se trata (éramos condicionados a começar a falar – salivar – ao primeiro toque da campainha, e a se emudecer ao segundo toque, alguns minutos depois) duvido que algum crítico tenha capacidade de entender o que ele diz naquele momento. Aliás, depois de alguns anos, ele acaba se conformando com sua fama entre os críticos.

Outro exemplo é no conto O Nevoeiro, do livro Tripulação de Esqueletos. No princípio, quando estão todos presos naquele supermercado, David se vê dentro de uma grande “caixa de Skinner”. Claro, não o Skinner diretor da Escola Elementar de Springfield, mas o grande psicólogo americano, pai do behaviorismo, ramo científico da psicologia.

Óbvio que desconhecer esses conceitos não interfere no entendimento da obra. Mas vejo a leitura como um montante de pequenos prazeres. Os grandes autores sempre se preocupam em escrever da melhor forma possível, em usar a palavra mais certa, em harmonizar frase a frase do texto. O mínimo é reconhecer esse esforço, e não simplesmente deixar de entender uma passagem imaginando que ela não vá fazer falta no contexto geral.

***


No início de carreira, as coisas nem sempre eram fáceis para a família King. Todavia, algumas vezes a solução parecia cair do céu.

Numa ocasião, andando pelas ruas do Maine, Stephen vê cones de sinalização durante todo o percurso. Decerto alguém os esquecera lá após realizar algum serviço de manutenção viária, ou algo do tipo. O fato é que isso o irritou profundamente e, aproveitando estar com sua caminhonete, saiu recolhendo os cones, um por um, a fim de levá-los ao departamento de trânsito da cidade, e registrar uma reclamação.

Acontece que, depois de recolher vários deles, King fora interceptado por uma viatura policial. O guarda então desce da viatura, olha para os vários cones na caçamba da caminhonete, fita King com cara de velhaco e pergunta: “Esses cones por acaso te pertencem, filho?”

King fora intimado a prestar depoimento no tribunal da cidade, e condenado a pagar uma multa de 250 dólares.

Há muito King não recebia nada pelos seus contos enviados a revistas masculinas populares, e o dinheiro da família mal dava para os remédios do recém-nascido Joe. Faltando um dia para o pagamento da multa, eis que King recebe pelo correio um cheque nominal de 250 dólares da revista Cavalier, referente à publicação de um conto enviado há mais de seis meses, e que até então não tinha sido utilizado pela revista. Um ser iluminado, sem sombra de dúvidas!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...