Não há dúvidas de que a turma mais longeva, madura, a partir dos 60 anos, talvez, seja mais conservadora quanto a alguns princípios, como os religiosos, por exemplo. Mas sempre haverá exceções, aqueles que, com a cabeça um pouco mais lúcida, estarão abertos a escutar e discutir opiniões diferentes, que vão de encontro aos seus preceitos, sem que isso abale suas crenças.
José Saramago, português gigante da literatura universal,
prêmio Nobel, não foi um ateu total, afinal, segundo ele próprio, todos os dias
se dava ao trabalho de tentar encontrar algum sinal de Deus. Sempre se sentiu
atraído pelo fenômeno religioso, tanto que escreveu obras magistrais como Caim,
que narra as imaginárias desventuras do primogênito de Adão e Eva, e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que também, de forma imaginária, procura mostrar
sua própria versão desse acontecimento histórico.
Mas o que os preceitos de um idoso tem a ver com a crença
religiosa do escritor português? Explico.
Dia desses, na sala de espera de um hospital, eu estava
sentado atrás de dois idosos, um senhor e uma senhora, que aparentemente se
conheceram ali mesmo. Conversavam baixo, mas pude pescar uns fragmentos de
frase. "Jesus" e "evangelho" foi parte desse fragmento.
Bom, absolutamente pertinente, afinal, num ambiente como o de um hospital, nada
mais comum evocar a fé de modo a encarar com força as adversidades. Mas o final
da frase me deixou ligado: "um livro fantástico do Saramago"!
Isso mesmo! O senhor estava fazendo uma recomendação
literária à senhora! Não consegui ver sua feição, mas os olhos do
senhor brilhavam ao falar do livro. Havia muita emoção naquela voz baixa e ponderada! Que
alegria, logo pensei! Há salvação na literatura!
O senhor se levantou e se despediu cordialmente da senhora,
que permaneceu sentada. Segundos depois, ela se apressou em pegar o celular na
bolsa e logo começou a digitar. Quero crer que tenha sido para anotar a
recomendação, antes que a memória falhasse e ela perdesse a chance de ler um
grande livro!
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