terça-feira, 14 de abril de 2026

Livros, fé e uma sala de espera de hospital

Não há dúvidas de que a turma mais longeva, madura, a partir dos 60 anos, talvez, seja mais conservadora quanto a alguns princípios, como os religiosos, por exemplo. Mas sempre haverá exceções, aqueles que, com a cabeça um pouco mais lúcida, estarão abertos a escutar e discutir opiniões diferentes, que vão de encontro aos seus preceitos, sem que isso abale suas crenças.

José Saramago, português gigante da literatura universal, prêmio Nobel, não foi um ateu total, afinal, segundo ele próprio, todos os dias se dava ao trabalho de tentar encontrar algum sinal de Deus. Sempre se sentiu atraído pelo fenômeno religioso, tanto que escreveu obras magistrais como Caim, que narra as imaginárias desventuras do primogênito de Adão e Eva, e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que também, de forma imaginária, procura mostrar sua própria versão desse acontecimento histórico.

Mas o que os preceitos de um idoso tem a ver com a crença religiosa do escritor português? Explico.

Dia desses, na sala de espera de um hospital, eu estava sentado atrás de dois idosos, um senhor e uma senhora, que aparentemente se conheceram ali mesmo. Conversavam baixo, mas pude pescar uns fragmentos de frase. "Jesus" e "evangelho" foi parte desse fragmento. Bom, absolutamente pertinente, afinal, num ambiente como o de um hospital, nada mais comum evocar a fé de modo a encarar com força as adversidades. Mas o final da frase me deixou ligado: "um livro fantástico do Saramago"!

Isso mesmo! O senhor estava fazendo uma recomendação literária à senhora! Não consegui ver sua feição, mas os olhos do senhor brilhavam ao falar do livro. Havia  muita emoção naquela voz baixa e ponderada! Que alegria, logo pensei! Há salvação na literatura!

O senhor se levantou e se despediu cordialmente da senhora, que permaneceu sentada. Segundos depois, ela se apressou em pegar o celular na bolsa e logo começou a digitar. Quero crer que tenha sido para anotar a recomendação, antes que a memória falhasse e ela perdesse a chance de ler um grande livro!

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