quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Livros, robôs, monstros e outras coisas estranhas

Como alguém já disse por aí, um livro sempre te indica outro livro, que te leva a outro, que revela outro.... e assim acontece com outras mídias: uma banda de rock cantando música de outra, que te faz escutar a música original, ou uma série de TV que faz referências a livros e músicas.

Nunca dei muita importância à TV desde sempre, mas definitivamente Stranger Things é uma daquelas séries que conseguiu atrair minha atenção. Fantasia, ficção científica, anos 1980, muito do que caras como eu apreciam pode ser encontrado ali.

Segunda temporada, primeiro episódio, as personagens Nancy e Jonathan leem um panfleto anunciando uma festa de halloween do tipo “venha balançar seu esqueleto”, e Jonathan diz: “Sem chance” ao convite de Nancy para a festa. Ela insiste: “E você vai ficar em casa sozinho, ouvindo Talking Heads e lendo Vonnegut?”. Foi então que tive que pausar o episódio para procurar sobre era esse tal Kurt Vonnegut. Afinal, uma série com tanta referência à Stephen King, não pode se enganar na referência a outro autor!

E não se enganaram! Engenheiro mecânico, antropólogo, capturado por alemães na segunda guerra, Kurt foi autor de uma vasta produção literária, publicando romances, contos, peças, a maioria no campo da ficção científica.

As vivências da guerra, bem como o período que trabalhou na General Electric, influenciaram sua obra, sobretudo seu primeiro romance, Piano Mecânico, de 1952. Esse foi o livro que escolhi como primeira experiência com o autor, por tratar de temas como indústria, máquinas e engenharia, assuntos muito presentes na minha vida.

Satírico e distópico, ele mostra os horrores de uma nação pós terceira guerra que perdeu a capacidade de sentir, de se importar com a essência do ser humano, onde boa parte da população (os pobres e de baixo QI, conhecidos como Ruídos e Fedidos que, apesar de terem tudo o que precisam de bens materiais, faltam-lhe o propósito de viver), foi substituída por máquinas. Paralelamente a isso, um desconfiado líder de uma longínqua nação visita aquele país a fim de conhecer essas “maravilhas” do mundo moderno, enquanto uma revolução oculta se movimenta para dar fim a aquilo tudo.

O doutor Paul Proteus, segunda geração de uma alta casta de engenheiros gerentes, se vê às voltas com esses eventos, o que o faz levantar questionamentos do mundo ao qual ele pertence, sem nunca ter certeza se, de fato, ele pertence a esse mundo. Conflitos morais o atormentam no decorrer da trama, a ponto de levá-lo a tomar drásticas decisões que afetam diretamente tanto seus superiores hierárquicos quanto sua ambiciosa esposa.

Reviravoltas, enredo intrincado, personagens complexos e diálogos ricos (e um memorável monólogo de um barbeiro enquanto corta o cabelo do líder da nação longínqua) fazem a leitura fluir de modo bem agradável, se mantendo interessante até a última virada de página.

Algumas resenhas afirmam que esse livro destoa da obra do autor, fato que eu ainda não pude comprovar, afinal, foi o único que li. Mas se você tem alguma dúvida sobre os impactos dos avanços tecnológicos, certamente esse livro vai fazer você perder boas noites de sono.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...