terça-feira, 29 de abril de 2025

Retrato, vaidade e um dia tranquilo para se renovar a CNH

Se você, quando na rua, tem ficado com os olhos grudados na tela do celular em vez de observar a vida alheia, cara, você tá perdendo muita coisa legal!

Dia desses, fui renovar minha CNH numa dessas “clínicas” credenciadas do DETRAN. Uso aspas porque, você que dirige sabe que, se você enxerga minimamente bem e tem coordenação motora razoável, a renovação é garantida, sem esforço. Entretanto, para algumas pessoas, o esforço começa antes mesmo de encarar o médico.

A tal “clínica” é uma loja, um espaço compartilhado entre recepção, área para coleta de digitais e foto e, na parede oposta, meia dúzia de cadeiras para você aguardar confortavelmente sua “consulta”. Você entra no recinto, vai pra recepção pagar as taxas (em espécie ou pix apenas), logo ao lado bate foto, coleta as digitais e então atravessa a loja em direção às cadeiras. Sentado ali, você tem uma visão privilegiada da recepção e do fotógrafo. E é aí que o barato começa.

O meu processo foi rápido. Desembolsei a grana, bastou um único click pro fotógrafo capturar meu retrato sorridente e, com alguns engasgos do dispositivo eletrônico de coletas de digitais, eu já estava pronto para o doutor!

Depois de mim foi a vez de um garoto. Devia ter uns vinte e poucos anos, perfumado, cabelinho na régua, sobrancelha riscadinha, camiseta de time europeu. Sentou-se em frente ao fotógrafo, se endireitou... click! O garoto viu a foto no monitor e algo o incomodou. Pediu outra. Mesmo processo e... click! Ele mostrou algo pro fotógrafo, que nem discordou nem concordou, apenas se posicionou e... click! “Não, num ficou boa...”, denunciou a cara do garoto. Outro click! “Será que tem como repetir? É que um ombro ficou mais alto que o outro!”. De longe se via o brilho do suor na testa do fotógrafo. Click! “Posso arrumar a gola da camisa?”. Click! “Nossa, inclinei o ombro de novo...”. Click! “Acho que pisquei!”. Click! (...) Click! (...) Click! Por fim, depois de uns 20 clicks, se deu por satisfeito. A cara nada amigável do fotógrafo decerto o convencera.

A cena da senhora foi outra resenha.

São duas rodadas no registro das digitais. Na primeira, você simplesmente posiciona cada dedo no leitor, que faz o registro. Molezinha. A dificuldade começou quando ela teve que posicionar o dedo inclinado e girá-lo suavemente, para o leitor registrar toda a área da sua digital, de um lado da unha até outro. De longe via-se o sofrimento da criatura. Com o braço rígido tal qual um taco de baseball, ela simplesmente não conseguia fazer o movimento. O fotógrafo gentilmente tentava ajudar, segurando firmemente seu braço, que se recusava a girar. Ela fez movimentos de relaxamento, tentou outra vez, e nada. Acharam que a dificuldade era por ela ser destra, assim, tentaram com o braço direito. Nada feito. Só se ouvia o apito do instrumento sinalizando a falha.

O médico me chamou. Levantei-me e, numa última olhada, consegui ver a senhora inclinando todo o copo na cadeira, prestes a cair, numa tentativa desesperada de girar o dedo no aparelho. Ah, pegou o Jeito! Com o corpo dela fazendo todo o movimento junto com o dedo, vi esperança na cara do fotógrafo!

3 comentários:

  1. O jovem dos vários cliques não sabe o que é filme de 12 poses! 😌
    Val Gonçalves

    ResponderExcluir
  2. A melhor coisa que tem é prestar atenção na vida alheia, aprendi isso antes dessa tecnologia invadir e tirar nossa atenção quase que completamente, até de nós mesmos.

    ResponderExcluir
  3. Kkkkkkk... me identifico em ser "mexiriqueira"! O cotidiano das rotinas são instigantes.

    ResponderExcluir

Pátria, família e arroz na parmegiana

Nessa última semana trabalhei como o moço do cafezinho num importante evento de moda aqui em Belo Horizonte. E trabalhar assim, alheio ao a...