Já dizia Nelson Rodrigues, "reler é mais importante que ler". Como, se a vida é tão curta pra tanto livro bom que tem por aí? Mas a culpa é da vida, não dos livros!
Sem dúvida, a pergunta mais difícil pra quem gosta de ler é "qual o melhor livro que você já leu na vida?". Certa vez, percebendo meu apuro diante dessa pergunta, um amigo sugeriu: "o melhor livro é sempre aquele que ainda vamos ler”. Bom, isso não me convenceu, tampouco à pessoa que me fizera a pergunta. Fato é que, há uns 12 anos pelo menos, e ainda hoje depois de relê-lo, minha resposta pra essa questão tem sido invariável: o melhor livro que já li na vida é O Processo, de Franz Kafka. No mínimo, eu digo que, sempre que imagino uma possível lista dos cinco melhores livros da minha vida, na maioria das vezes O Processo encabeça essas listas imaginárias.
Eu já conhecia Kafka de outras histórias, outros livros, como A Metamorfose, tão famoso quanto O Processo, mas com a diferença de ter sido publicado com o autor ainda vivo, já que O Processo é uma obra póstuma, cuja publicação foi de responsabilidade do melhor amigo de Kafka, o também escritor Max Brod, que tinha ordens expressas de queimar, sem ler, tudo o que Kafka tinha escrito e que não havia publicado.
Bom, desnecessário dizer que Max descumpriu essas ordens e, apenas um ano após a morte do amigo, em 1925, ele deu à luz essa que é uma das obras mais lidas, mais traduzidas, mais estudadas e mais discutidas de toda a história da literatura mundial! Também desnecessário dizer o quanto agradecemos à Max por essa desobediência.
Sim, então em 2025 comemora-se 100 anos da publicação da primeira edição de O Processo, obra que passou por várias mudanças ao longo desse século. Mudanças essas que se referem à alternância da ordem dos capítulos, reorganização de parágrafos, inserção e supressão de frases ora sinalizadas pelo próprio Kafka, ora modificadas por Max para trazer mais sentido ao texto do amigo. Enfim, boa parte do lemos hoje em O Processo não é exatamente o que Kafka gostaria que lêssemos.
Esse imbróglio todo se deu por um motivo em específico: trata-se de uma obra inacabada pois Kafka morreu em 1924, antes de finalizá-la. Isso deu muita margem à todas essas alterações que começaram já na sua primeira edição. E eu tive o privilégio de ler esse livro em dois momentos: o primeiro, há 12 anos, sem saber de que se tratava de uma obra inacabada, e hoje, quando finalizo a releitura, já sabendo, obviamente.
Diferentemente de outro livro do autor, também póstumo, também inacabado, chamado O Castelo, que acaba no meio de um diálogo, com uma frase incompleta, O Processo tem, sim, um desfecho. Mas é durante a história que, com uma leitura atenta, talvez você perceba que ali falta algo, existe alguma lacuna, fatos carecem de explicação. O que, de forma alguma, tira o brilho dessa obra maravilhosa.
Já recomendava antes, e continuo recomendando a leitura de O Processo. Não se trata de uma leitura muito fácil, por vezes a narrativa é claustrofóbica, o fluxo de pensamento do protagonista exige muita concentração, mas enfim, como o próprio Kafka disse em carta a um amigo da época da escola, “um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós”.
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